sábado, 27 de dezembro de 2008

Branco Sobre Branco



Branco Sobre Branco

Esta história é escrita de uma forma que possa ser lida por qualquer um, mas muitas vezes as melhores histórias não aparecem neste formato, não aparecem como letras pretas sobre papel branco.

Vou contar a história de um homem, um simples pintor de paredes e de muros, todos pintados do mais puro branco, e sobre estas paredes e muros ele também escrevia histórias sobre homens e mulheres, todos seus personagens eram incrivelmente poderosos.
Albino Caiado nasceu em uma pequena cidade do interior, e como seu pai aprendeu o ofício de pintor desde tenra idade, tornou-se um mestre da pintura, e das letras também, mas de uma forma um tanto incomum.

Albino pintava tudo de branco, mas o fazia com indiscutível perfeição e, ao mesmo tempo em que pintava também deixava nas paredes por onde passava a história daqueles que um dia lhe seriam extremamente úteis, pintava tão bem com tinta branca que fora convidado para dar manutenção permanente à prefeitura da cidade onde nascera, era uma casa branca, e assim deveria ficar, igual à famosa sede do governo do país mais poderoso do planeta.
O nosso amigo pintava com gosto e com arte, o prefeito tornara-se seu confidente, e ao mesmo tempo sua primeira vítima, as confidências do nobre alcaide passaram a integrar a fachada da prefeitura, uma desgraça que não estava no orçamento do município, mas que lhe renderia seu primeiro milhão.

Começava nesse instante a carreira de um artista que seria muito bem pago para que sua obra não fosse notada ele teria, no entanto, que enfrentar alguns questionamentos para provar que não estava blefando, mas isso seria fácil de se fazer, bastaria deixar seus muros e paredes sem a devida manutenção por um tempo, isso era sem dúvida alguma a prova mais tangível de seu grande poder.

Albino conseguiu com isso uma rede de contatos muito poderosa, que o levou a uma posição invejada por qualquer vivente, foi contratado para pintar as paredes dos palácios do planalto central, e as cúpulas das casas do congresso nacional.
Dia após dia sua rede o alimentava com histórias cada vez mais interessantes, e todas elas passaram a integrar sua gigantesca e discreta obra, cada um deles trazia histórias sobre seus principais desafetos, e com isso cuidava de não ter as histórias sobre si reveladas, mas sim cobertas pelo mais puro e imaculado branco de Albino Caiado. Isso se tornou ponto de honra para deputados e senadores, ministros, generais e até para o Presidente da República.

Albino é um homem hábil e discreto, trabalha sempre com seu uniforme azul cobalto, e emprega muitos auxiliares para manter sua imaculada obra intacta, tem até mesmo verba do orçamento da união para mantê-la assim, cada gota de tinta é valiosíssima, e nenhuma delas nunca esta sobre a sua roupa, ou sobre a roupa de qualquer de seus ajudantes, são todos treinados por ele, e dominam seus segredos.

Nosso grande, porém discretíssimo artista tem atualmente feito das suas no exterior, ele foi contratado para manter impecavelmente brancos alguns prédios no país mais poderoso do mundo, um deles é o congresso nacional, e o outro é a tal da casa branca da qual falamos no início, por lá tem pintado muitas histórias, e muitas delas são muito interessantes, mas nenhuma será lida por nenhum de nós.

Albino é sem dúvida um artista ímpar, sua obra é vista por muitos, e não é compreendida por quase ninguém, apenas os eleitos têm a chance de chegar a tal compreensão, e chegam lá logo que tomam posse de seus cargos.
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Um comentário:

Esther disse...

Que história, heim Zisco!

Haja branco para tapar toda a sujeira deixada por alguns políticos,

sobre o seu comentário, tudo é possível quando
pensamos que o mundo é pequeno
demais,
fiquei imaginando a cena, com
certeza iríamos dar boas risadas
juntos!!! =D